| Na cidade de Anam existia uma formosa jovem chamada Hoan-Lan
cujo divertimento predileto era fazer penar duras paixões em
numerosos admiradores. Por um sorriso seu o jovem Kien-Su tinha cinzelado
o ouro mais fino, e trabalhado com infinita paciência as mais
lindas peças de jade. A ingrata Hoan-Lan, depois de adornar-se
com todos os presentes, riu-se dele. Kien-Fu desesperado acabou com
a vida jogando-se no Rio Vermelho.
E como Kien-Su vários outros mataram-se: o pintor Nzuyen-Ba penetrou
selva adentro, Ma-Da envenenou-se, Cunz-Lie enlouqueceu. Todos por terem
sido desprezados por Hoan-Lan.
Mas o poderoso deus das cinco flechas julgou ter chegado o momento de
castigar tanta maldade. E o castigo foi fazer com que a jovem volúvel
se apaixonasse perdidamente pelo formoso Mun-Say. E assim aconteceu.
Desde então Hoan-Lan, no seu leito de nácar e sedas bordadas,
desesperava-se com a indiferença de Mun-Say:
"- Não me interessas rapariga, dizia ele, és como
todas as outras, não serve nem para atar as fitas da sandália
da mulher que amo."
. . .Treslouca Hoan-Lan, apesar da noite escura, foi procurar o
deus da montanha de Tan-Vien.
. . .Quando chegou junto ao trono de ônix do poderoso gênio,
prostou-se e implorou:
"- Cura-me que sofro horrorosamente. Amo Mun-Say que me despreza."
"- É justo o castigo, respondeu o gênio, porque o
mesmo tens feito aos teus apaixonados. Vai-te daqui, nada conseguirás!,
rugiu o gênio."
Na saída do templo Hoan-Lan encontrou uma bruxa de pés
de cabra.
"- Formosa jovem, disse-lhe a bruxa, sei que és muito desgraçada.
Queres vingar-te de Mun-Say?"
"- Vende-me tua alma e juro-te que embora Mun-Say nunca te ame,
não amará outra mulher."
Hoan-Lan aceitou o contrato. A bruxa fez um feitiço com uma folha
de palmeira e enterrou-a, pronunciou umas palavras desconhecidas e desapareceu.
E Hoan-Lan voltou para casa.
. . .Um dia, vendo de longe seu adorado Mun-Say, correu para ele,
e quando preparava-se para abraçá-lo o jovem transformou-se
numa árvore de ébano. Neste momento apareceu a bruxa que,
soltando uma gargalhada, disse:
"- Dessa maneira o teu amado, embora nunca te ame, não poderá
ser nunca de outra mulher."
"- Bruxa infame, exclamou chorando a pobre Hoan-Lan, que fizeste
ao meu adorado? - Devolve-me ou mata-me."
"- Contratos são contratos - replicou a bruxa. - Cumpri
o que prometi. A tua alma me pertence. E soltando uma última
gargalhada, desapareceu.
. . .Hoan-Lan caiu chorando ao pé
da árvore: "- Perdoa-me Mun-Say. Tem para mim uma só
palavra de amor, de indulgência, de compaixão. Não
vês como me arrasto a teus pés, como sofro?" Mas a
árvore nada respondia.
. . .A jovem ficou ali parada durante muito tempo. Um dia, passou
por ali um gênio, que se compadeceu de sua dor. Acercando-se dela,
colocou um dedo em sua testa e disse:
"- Mulher, procedeste muito mal, mas sua dor purificou sua alma.
Estás perdoada e vai deixar de sofrer. Antes que a bruxa venha
buscar tua alma, vou converter-te numa flor. Ficarás sendo, no
entanto, esquisita e requintada que dê a impressão do que
foi tua vida maldosa. Quem vir tuas pétalas facilmente advinhará
o que foi teu espírito caprichoso, volúvel e cruel e a
tua preocupação constante com a elegância.
"-Concedo-te um bem: não te separarás do bem que
adoras e viverás de tua seiva, parasita do teu amado."
Enquanto falava, a túnica rósea de Hoan-Lan ia empalidecendo
e tomando uma delicada cor lilás. Os olhos da jovem brilhavam
como pontos de ouro e suas carnes tomaram a tonalidade do nácar.
Os seus formosos braços enrolaram-se na árvore, numa derradeira
súplica. E ela se transformou numa orquídea.
E foi assim que apareceu a primeira orquídea no mundo, segundo
a lenda de Anam. |