ABRACC Ano VI N. 22

 Catasetum lanciferum Lindl.

Edward's Botanical Register. V. XXVII. t. 5f. 5. 1841
Kleber G. de Lacerda Jr.

Catasetum lanciferum foi publicado pela primeira vez no periódico inglês Edward's Botanical Register, em 1841. No volume XXVII. Prancha 5 há cinco figuras de Catasetum sendo que a de numero 5 retrata o . lanciferum, assim descrito em latim: "Petalis maculatis lineari-lanceolatis sepalo dorsali conformi suppositis, labello subcordato-ovato fimbriato basin versus saccato sub sacco cornu tripartito instructo, sub apice lamina lineari-lanceolata aucto, columnae cirrhis vix columna longioribus".
O seguinte comentário é feito:
"Uma espécie brasileira, pela qual devo agradecimentos ao Honorável e Reverendíssimo Wm. Herbert. Ela foi coletada pelo Dr. Gardner no Brasil e talvez seja uma variedade de C. barbatum, mas é muito diferente no seu labelo".
No volume XXX, de 1844, da mesma obra, sob o título 40, em uma listagem dos Catasetum descritosaté esta data - divididos em dois gêneros reconhecidos na época como Catasetum e Myanthus, o C. lanciferum é incluido neste último gênero da seguinte forma:
"Muito parecido com o C. cristatum , mas só na margem o labelo é partido em franjas; neste ponto [ápice] há um amplo espinho em forma de lança".
Características morfológicas: Epífita medianamente robusta para o gênero, afim de Catasetum cristatum Lindl. Raízes filiformes, com cerca de 2,5 mm de diâmetro, podendo originar raizes adventicias mais delgadas. Rizoma curto. Pseudobulbos de tamanho muito variável, com até 20,5 cm de comprimento por 4,6 cm em seu maior diâmetro, agregados, multianelados, fusiformes, eretos, verdes, quando em fase de crescimento lisos, recobertos com as folhas basilares, posteriormente sulcados longitudinalmente, recobertos então pelas nainhas foliares remanescentes que com o tempo também se decompõem. Folhas até 10 por pseudobulbo, verdes, oblongo-lanceoladas, com até 38 cm de comprimento e 7,2 cm na maior largura. Inflorescências masculinas basais 1 a 2 arqueadas com até 39 cm de comprimento com brácteas amplexicaules lanceoladas até 4 desde a base à metade da raque, a partir de onde apresentam até 23 flores ressupinadas. Brácteas florais triangulares, com 0,4 cm de largura na base e 1,0 de comprimento. Pedicelos cilíndricos com 1,9 a 2,3 cm de comprimento e 1,6 mm de diâmetro na porção mediana, de coloração castanho-esverdeada. Sépalas e pétalas linear-lanceoladas, verde claras com pigmentação marrom escura esparsa e uniformemente distribuída ou até totalmente castanhas, a sépala dorsal ereta ligeiramente côncava com 3,0 a 3,2 cm de comprimento por 0,7 a 0,8 cm de largura, as laterais côncavas refletindo-se fortemente com 3,1 cm de comprimento por 0,9 a 1,0 cm de largura, pétalas convexas com 2,8 cm de comprimento por 0,6 cm de largura. Labelo ínfero, pouco carnoso, subcordado-triangular, com 1,8 a 2,1 cm de comprimento e 0,7 a 0,8 cm de largura na parte basal, verde claro com fina pigmentação marrom mais concentrada nas bordas, com porção saquiforme estreita e profunda situada na porçào média ligeiramente geniculada em visão posterior, na base apresentando calo carnoso nitidamente tridentado com o dente central mais largo, de cor branca, no ápice apresentando longa e destacada protuberância carnosa de cor branca em forma de lança ou espátula com superfície lisa, às vezes com rugosidade ou pequena bifurcação em sua extremidade; margem do labelo em toda sua extensão provida de fímbrias longas, enfileiradas, de cor branca ou esverdeadas, com cerca de 0,3 a 0,5 cm de comprimento. Coluna ereta, carnosa, longamente rostrada com 2,1 a 2,3 cm de comprimento e 0,5 cm na maior largura de coloração esverdeada com fina pigmentação castanha de intensidade variável, com antenas paralelas com 1,0 cm de comprimento, ligeiramente curvas, cujas extremidades apoiam-se sobre os dentes da calosidade basal. Antena de cor da coluna, bilocular, com 1,2 cm de comprimento e 3,0 mm na maior largura, com longo prolongamento rostral: políneas 2, amarelas, subovóides, assimétricas, com ampla fenda longitudinal, com 3,5 mm de comprimento por 1,1 mm de largura; caudículos minúsculos elásticos, estípete com 4,0 mm de comprimento por 1,2 mm na sua maior largura; disco do viscídeo com cerca de 2,0 mm de diâmetro.
Inflorescências femininas basais eretas, com até 16,5 cm de comprimento, com brácteas amplexicaules lanceoladas até 4 desde a base à extremidade da raque, onde apresentam 2 a 4 flores não ressupinadas. Brácteas florais triangulares, apressas aos pedicelas verdes, com 0,3 cm de largura na base e 0,6 cm de comprimento. Pedicelos cilíndricos sigmóides com 4,6 a 5,5 cm de comprimento a 0,4 a 0,5 cm de diâmetro na base até 0,6 cm na porção mais larga onde há 6 sulcos longitudinais correspondendo ao ovário, de coloração esverdeada. Sépalas e pétalas oblongo-lanceoladas, verde claras podendo haver fina pigmentação marrom escura e pouco intensa nas sépalas, a sépala dorsal reflexa com 1,5 cm de comprimento por 1,0 cm de largura, as laterais levemente côncavas, pouco reflexas, com 1,5 a 1,8 cm de comprimento por 1,1 a 1,2 cm de largura, pétalas levemente convexas com 1,7 a 2,0 cm de comprimento por 0,8 a 0,9 cm de largura. Labelo súpero, carnoso, globoso, com 1,8 a 2,0 cm de comprimento e 1,7 a 1,9 cm de largura, verde claro, superfície interna com 14 a 18 estrias longitudinais levemente relevadas, com óstio reniforme, margem levemente rugosa, ápice com pequena quilha reflexa. Coluna carnosa, com 0,6 a 0,7 cm de comprimento e 1,0 a 1,1 cm de largura de coloração esverdeada; polinário rudimentar.
Comentários: Hoehne considerou C. lanciferum Lindl. como sinônimo de C. barbatum Lindl. var. spinosum Rolfe (Myanthus spinosus Hook Bot. Mag.. LXVII, t. 3802, 1841) com o que não concordamos, foi daí gerado o problema de identificação que persiste até hoje. Conforme mostramos anteriormente (em "Distribuição Geográfica das Espécies do Complexo C. cristatum", Bradea VII: 16, p. 95-96, Set/1998), C. barbatum ocorre na Bacia Amazônica, em baixas altitudes, ao longo dos rios Negro e Amazonas e de seus afluentes principalmente da margem esquerda, estendendo-se para o Norte até países vizinhos; C. spinosum é uma variedade de C. barbatum ocorrente no Nordeste brasileiro, descrita a partir de uma planta coletada no Estado do Ceará, e cuja figura é bastante elucidativa na Lindenia (Vol. VII, p. 23, Táb. CCXCVIII, 1891), e também bastante coincidente com as plantas que conhecemos desta região. Na magnífica Flora Brasílica de Hoehne, vol. XII, VI, Tab. 94, é apresentado o desenho de uma espécie do Planalto Central brasileiro, coletada em 1912 pelos eminentes botânicos Hoehne e Kuhlmann em Cáceres, Estado do Mato Grosso, durante a famosa expedição Rondon,a qual foi identificada como sendo C. barbatum var. spinosum; entretanto, trata-se do C. gladiatorium Lacerda, descrito em 1998, planta de distribuiçào geográfica isolada das demais aqui citadas e com importantes peculiaridades morfológicas e fenológicas, facilmente distinguível das anteriores e também de C. lanciferum. Aliás, estas duas espécies que não coexistem geograficamente, têm de semelhante nas flores masculinas apenas o calo basal do labelo com três agudas pontas, mas não resistem a uma verificação mais apurada dos pormenores morfológicos. C. lanciferum seria o nome válido para a espécie que os orquidófilos brasileiros em geral denominam equivocadamente "C. appendiculatum". Talvez devido ao desenho na Flora Brasílica Hoehne (vol. XII, VI Táb. 96) representando o C. appendiculatum Schltr. estar um tanto parecido com o C. lanciferum os orquidófilos brasileiros têm identificado as plantas oriundas de Minas Gerais em suas coleções como sendo C. appendiculatum. Na verdade C. appendiculatum foi descrito a partir de plantas coletadas no alto Rio Negro, no Amazonas: na Flora Brasílica há um desenho feito a partir de um Catasetum enviado ao Jardim Botânico de São Paulo por George Hubner em 1932 identificado como C. appendiculatum. Esta espécie foi descrita por Rudolf Schechter em 1925 (Beihefte zum Botanischen Centralblatt 42,2:115) a partir de material coletado pelo mesmo Hubner, mas não há como saber se foi a mesma recebida por Hoehne cerca de 7 anos depois. Como o holótipo do C. appendiculatum foi destruído em Berlim durante a Guerra e não há desenhos originais que possam embasar conclusões atxonômicas, não é possível assegurar hoje o que seria esta espécie; pela localizaçào geográfica, entretanto, temos certeza de que não é a mesma que encontramos abundantemente em Minas Gerais, tanto na natureza quanto em muitas coleções. Não sendo possível identificar C. appendiculatum, este é um nome que deve ser invalidado já que parece impossível restabelecê-lo; em nossa opinião trata-se de mais uma das muitas variedades de C. barbatum.
Distribuição Geográfica: C. lanciferum Lindl. é uma espécie do Complexo C. cristatum bastante próxima de C. barbatum Lindl., que ocorre na região Sudeste do Brasil, mais precisamente no Estado de Minas Gerais e áreas fronteiriças. Ela é a espécie de Catasetum mais abundante neste Estado, onde supera o C. hookeri e o C. fimbriatum em área de dispersão, pois estende-se desde o norte, fronteira com a Bahia, até o sul, limites com São Paulo, passando por regiões centrais com altitudes até 850 m; existe até dentro da zona urbana de Belo Horizonte, sobre palmeiras, reproduzindo-se naturalmente em parques e jardins. É comum em Vespaziano, Santa Luzia e Lagoa Santa. No vale do rio Jequitinhonha, em Diamantina e municípios vizinhos, ocorre abundantemente sobre árvores, quase sempre em pequizeiros (Caryocar brasiliense Camb.) e em diversas espécies de palmeiras. Como dissemos, C lanciferum predomina em altitudes de 300 a 850 m de altitude, enquanto C. barbatum estende-se pelas áreas abaixo de 200 m de altitude da bacia amazônica e litoral nordestino. Cultivo e floraçào: seu cultivo é muito fácil na região Sudeste do Brasil; ao contrário, o cultivo de C. carolinianum, C. barbatum, C. cristatum e outros do citado Complexo é muito difícil nesta região, pois são endêmicas de regiões de baixa altitude e latitudes diferentes, e não suportam nossas baixas temperaturas ou a longa estiagem no inverno. Sua época de floração vai desde o início da brotaçào na primavera, em outubro até fevereiro ou março, florindo até três vezes ao ano, com inflorescências masculina, femininas ou mistas.
Espécies de Catasetum consorciadas: Ao norte da área de ocorrência de C. lanciferum, isto é, no Norte de Minas e Sudoeste da Bahia, ocorre o C. blackii Pabst.; ao Sul, aproximando-se das fronteiras com São Paulo e Rio de Janeiro, coexistem com C. labiatum Barb. Rodr. e a Oeste de Minas Gerais começa a ceder lugar para o C. fimbriatum (morren) Lind. & Paxton: em toda a sua área pode consorciar-se com C. hookeri Lindl. Avançando para dentro do Noroeste de São Paulo, Mato Grosso e Goiás não é mais encontrado, sendo que aí é domínio do C. gladiatorium - que também é chamado de C. appendiculatum por muitos orquidófilos.